Tração integral: solução complexa para um problema que não existia (Divulgação/Ferrari) Eu nunca li a Bíblia. Eu tentei, mas, depois de um tempo, perdi a vontade de viver. E é a mesma coisa com Shakespeare. Você sabe que ninguém vai falar “protejam o perímetro” e, mesmo que alguém dissesse, levaria quatro horas para expressar isso. E você precisaria de um professor por perto para explicar o que eles estavam falando. Mas, quando se trata de literatura que é impossível de entender ou digerir, não há como superar um comunicado de imprensa da Ferrari. Deixe-me dar um exemplo. “A cabine sofisticada e refinada foi projetada completamente em função dos seus ocupantes.” Sério? Eu pensava que ela tinha sido projetada parcialmente em função dos ocupantes e parcialmente para o carrinho do vendedor de cachorro-quente. Agora o comportamento dinâmico: “O sistema 4RM Evo é mais preciso do que nunca. Em particular, o gerenciamento do torque frontal foi melhorado em todas as situações, mas especificamente em termos da vetorização de torque baseada no SS4”. Esse tipo de conversa fiada pode funcionar bem em uma conferência de tubulações industriais, mas é sobre uma Ferrari que estamos falando. E não há espaço nesse mundo para tecnobaboseira árida de engenharia. A Ferrari precisa entender isso. Eu não preciso de infindáveis páginas de Shakespeare com discursos militares. Porque a foto que acompanha o texto diz muito mais. A foto que veio no comunicado de imprensa era de um carro tão lindo que me perseguiu à noite. Ela é chamada de GTC4Lusso, e sua melhor descrição seria uma perua esportiva de três portas. Eu sou fanático por carros assim. Nunca houve um ruim. O Lancia HPE, o Volvo P1800 ES e o Reliant Scimitar. Todos eram tremendos, mas essa Ferrari superou a turma toda. Por dentro ou por fora, não interessa. Ela é linda! (Divulgação/Quatro Rodas) É o carro mais bonito que já vi na vida. Eu pus a foto na parede do meu escritório e passei um longo tempo contemplando-a. E deixei a equipe de produção maluca, imaginando razões idiotas para colocá-la na próxima temporada de The Grand Tour. Eles diziam que deveríamos fazer algo sobre hatches e eu sugeri a Ferrari. Eu a sugeri para tudo. E fui voto vencido sempre. E posso entender o porquê. Este carro é o substituto da velha FF, que era uma porcaria. Ou, como um funcionário de alto escalão da Ferrari colocou: “É, não foi nosso melhor momento”. Eu a testei em um lago congelado na Suécia, e não consegui acreditar como ela perdia em todos os aspectos para o Bentley Continental GT, bem mais barato. Também não podia crer que sua tração 4×4 fosse tão desnecessariamente complicada. Porque as rodas traseiras são impulsionadas por um eixo vindo da parte de trás do motor e as da frente recebem potência do outro eixo, que sai da frente do propulsor. Ou seja, ela precisava de duas caixas de câmbio. Depois das portas do BMW Z1, foi a solução técnica mais complexa para um problema que não existia. E não funcionou. Meu colega James May conhece a FF bem e não acredita que ela tem tração nas quatro rodas. Ele até olhou por baixo, mas ainda não consegue entender a coisa. De fato, ele foi quem bateu o pé mais forte para que a substituta da FF não aparecesse no nosso programa. Nunca. Por dentro da GTC4Lusso. Os botões das luzes, dos limpadores e dos piscas estão no volante (Divulgação/Quatro Rodas) Tentei explicar que a GTC4Lusso tem uma versão V8 e com tração só em duas rodas. Não adiantou: perdi a discussão. E agora estou bastante feliz. Eu pedi emprestada a versão V12 com tração integral e não podia esperar por esse dia. Eu queria muito vê-la ao vivo. Para ver se ela era tão linda quanto na foto. E fiquei um pouco decepcionado: ela foi deixada em um pequeno estacionamento perto de casa e eu não conseguia me afastar o suficiente para ver todas suas linhas de uma só vez. Mas isso não era problema. Eu ia para o interior da Inglaterra, onde haveria vários espaços para observá-la em toda sua glória. Mas foi por pouco. Como esse carro é grande! Se quiser ver a macchina inteira, você terá de estacioná-la no campo e andar para longe por uns 10 minutos. O que é estranho é que ela tem basicamente a mesma carroceria da velha e terrível FF. Mas alguns poucos retoques inteligentes na grade, nas aberturas da asa dianteira e nas rodas a transformaram. Sua melhor descrição seria uma perua esportiva de três portas (Divulgação/Ferrari) O interior é igualmente sensacional – talvez porque tenha sido projetado com os ocupantes em mente. Sim, ela tem os problemas de sempre das Ferrari. Os botões das luzes, dos limpadores e dos piscas estão no volante. Mas – e adorei isso – há um segundo painel na frente do passageiro. Ele também permite escolher se quer que seja exibido o conta-giros, o GPS ou um milhão de outras coisas. É brilhante. Bem, mas vamos parar um momento para rir do preço. A versão básica custa 230.430 libras (R$ 1 milhão), mas o carro de teste tinha alguns opcionais. Apple CarPlay por 2.400 libras; pinças de freio azuis a 1.178; cobertura para a soleira da porta em carbono por 4.992 e um teto de vidro por 11.520 libras (R$ 50.700). Ha ha ha ha! Então, como é dirigi-la? Na verdade, não tão empolgante quanto você poderia imaginar. É claro, com um V12 de 6,3 litros, ela não é lerda, e sendo uma Ferrari também não é sem graça. Mas não é excepcional.
Fonte:
Quatro Rodas
Jeremy Clarkson: a Ferrari GTC4Lusso deveria vir com um pedestal
Mais Novidades
Dez carros que transformaram as lanternas em uma só
– (divulgação/Porsche)A Porsche foi uma das primeiras fábricas a adotar as lanternas interligadas em seus carros atuais, talvez porque desde os anos 70 o lendário 911 já trouxesse uma régua reflexiva na traseira. Além dos novos 911, Macan, Panamera e Cayenne, elas estão no elétrico Taycan, o mais recente lançamento da marca.– (Divulgação/Bugatti)Comprada pela VW em 1998 e relançada em 2005, a Bugatti introduziu o conjunto ótico traseiro horizontal no Chiron, apresentado em...
Leia mais
Como o ponto H influencia o seu prazer… de dirigir um carro
O ponto H determina diversas características de um projeto (Divulgação/Ford)Muito se fala sobre o ponto H. Em alguns casos ele é elevado; em outros, rebaixado.Nos anos 2000, houve um movimento de elevação que dura até hoje. Mas, atualmente, existe uma tendência, que ainda não se sabe se veio para ficar, de rebaixamento do ponto H.Por definição, o ponto H é um ponto teórico criado pelo encontro do prolongamento das linhas do tronco e das pernas dos ocupantes do veículo.No carro,...
Leia mais
Citroën C4 Cactus terá nova geração (e motor elétrico) em 2020
Novo C4 Cactus chega a Europa ano que vem com motorização elétrica (Christian Castanho/Quatro Rodas)A CEO da Citroën, Linda Jackson, disse em entrevista ao AutoNews Europa que a nova geração do C4 Cactus chega à Europa ano que vem. Ainda caberá a ele a responsabilidade de ser o primeiro carro elétrico de grande volume da marca.Segundo Jackson, a ideia é que 100% da gama de produtos da marca tenha opções elétricas ou híbridas até 2025.O novo C4 Cactus será desenvolvido sobre uma...
Leia mais
Deputado quer isentar caminhoneiros de terem CNH suspensa por infrações
– (EBC/Reprodução)A Câmara Federal tramita o projeto de lei (3919/2019), de autoria do deputado Boca Aberta (PROS/PR), que busca suspender a contagem de pontos e também a suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) das categorias C, D e E.Caso seja aprovado, motoristas dessas categorias que estiverem em atividade profissional que forem flagrados cometendo uma infração de trânsito serão punidos apenas com a cobrança da multa.O deputado alega que a atual realidade do...
Leia mais
Flagra: novo Peugeot 208 turbo será mais forte que Polo, Onix e HB20
Nova geração do Peugeot 208 começa a ser vendido no primeiro semestre de 2020 (Henrique Rodriguez/Quatro Rodas)O novo Peugeot 208 só chega ao Brasil em meados do ano que vem. Esta nova geração será produzida em El Palomar (Argentina), de onde também sairá a segunda geração do SUV 2008. Mas isso não impede que o hatch compacto de circule em testes pela região da fábrica da geração atual do modelo, localizada em Porto Real (RJ).Hatch está 4 cm mais largo na nova...
Leia mais
AMG GT C Roadster é para andar (rápido) de cabelo ao vento a R$ 1,2 milhão
Um conversível de mais de R$ 1,2 milhão (Divulgação/Mercedes-Benz)A Mercedes-Benz lança nesta semana no Brasil conversível AMG GT C Roadster. As vendas começam imediatamente, mas para ter um na garagem e rodar (rápido) por aí de cabelos ao vento será preciso desembolsar nada menos que R$ 1.256.900.Estamos falando do terceiro carro mais caro da marca, atrás apenas de GT R e GT R Pro. Sua capota é de lona e pode ser aberta com o veículo em movimento a até 50 km/h, em processo que...
Leia mais